Problemática
O tema abordado no projeto é a aceleração dos processos de erosão genética e cultural que colocam em risco a biodiversidade agrícola tradicional da Amazônia brasileira, tornam mais vulneráveis sistemas de produção tradicionais compatíveis com a perenidade dos ecossistemas florestais, e ameaçam a produção e transmissão de conhecimentos tradicionais associados.
 |
O aumento no ritmo da erosão genética é um problema mundial, e foi tratado como tal na Conferência de Leipzig de 1996. Embora afetando o Brasil como um todo, a erosão genética reveste-se de importância especial no caso da Amazônia, onde se localizam importantes focos de diversificação de plantas cultivadas, entre as quais a mandioca. Justamente na Amazônia, porém, a erosão genética tem sido acelerada nas últimas décadas, em conseqüência da urbanização crescente, da consolidação de novos eixos rodoviários e da expansão de um mercado nacional de bens agrícolas. |
A Amazônia não é apenas foco de biodiversidade agrícola; ela é também epicentro de diversidade cultural e social. Mas as populações indígenas e tradicionais — também chamadas de populações ou comunidades locais —, detentoras e geradoras da maior parte dos recursos fitogenéticos na Amazônia brasileira, sofrem cada vez mais sob a influência de dinâmicas como a invasão de terras indígenas, integração no mercado, desenvolvimento de uma agricultura periurbana, mudanças de hábitos alimentares, e escolarização infantil uniformizada. Esses fatores causam erosão em seus sistemas de produção locais e nas formas de seleção e de gestão dos recursos biológicos associados.
Objetivos
| O objetivo do projeto é identificar os processos biológicos e socioculturais que geram a agrobiodiversidade na Amazônia brasileira, e que são indissociáveis da produção e transmissão dos saberes associados às plantas cultivadas. Dito de maneira mais sucinta, o projeto visa responder à seguinte pergunta científica central: quais são os processos de construção de objetos biológicos e de saberes locais? Além disso, o projeto visa responder ao seguinte desafio prático: como assegurar a continuidade futura dos processos de construção da agrobiodiversidade e dos conhecimentos a eles associados? |
 |
Os objetivos específicos do programa são:
Elaborar uma metodologia de estudo da agrobiodiversidade e de conhecimentos associados, que seja reprodutível em diversas regiões e em diferentes contextos;
Identificar as variáveis de ordem biológica e sociocultural pertinentes para caracterizar os processos locais de gestão da agrobiodiversidade nos diferentes contextos pesquisados e mapeados;
Criar uma experiência positiva e modelar de pesquisa em cooperação com populações amazônicas, com respeito a seus direitos intelectuais e atendimento às normas legais;
Propor uma reflexão sobre instrumentos jurídicos e econômicos de valorização da agrobiodiversidade e fortalecimentos dos processos locais de gestão da agrobiodiversidade, para combater a erosão genética e a erosão dos conhecimentos associados.
Gerar e modelar a distribuição das plantas cultivadas na Amazônia com vista à implementação de instrumentos de conservação.
Métodos e locais de estudo
A metodologia é centrada em torno de três princípios diretrizes comuns a todas as disciplinas participantes : participação das populações locais, espacialização dos dados e identificação de redes. Essa metodologia toma a abordagem local como nível privilegiado de análise, com os métodos próprios à antropologia e à etnobiologia.
As regiões de estudo. Rio Negro (AM) e Alto Juruá (AC), cada uma com três localidades representando situações diferenciadas em termos de gradiente urban-rural, foram selecionados em função de suas características biológicas, culturais e da dinâmica operacional da pesquisa.
i. trata-se de duas regiões classificadas como de extrema importância para a conservação da biodiversidade (MMA, 2001);
ii. são alvos de projetos de desenvolvimento diferenciado, com uma importante mobilização das populações locais nas ações de pesquisa em colaboração com instituições de pesquisa;
iii. associam em seus territórios um mosaico de populações tradicionais, indígenas ou não, cada uma das quais com um certo tipo de relação com o ambiente;
iv. os dados bibliográficos e programas anteriores de pesquisa sobre a mandioca nas duas regiões sublinham a dominância de mandiocas doces no Alto Juruá e de amargas no Rio Negro, o que indica uma história e uma estrutura da agrobiodiversidade diferente em cada região;
v. finalmente, o conjunto da equipe possui uma ampla experiência anterior em uma ou outra dessas regiões, o que permitirár uma inserção mais rápida do PACTA (Populações Locais, Agrobiodiversidade e Conhecimentos Tradicionais na Amazônia), tornando possível além disso uma abordagem diacrônica abrangendo uma década.

Equipes envolvidas
IRD :
Laure Emperaire, botânica
Esther Katz, antropóloga
Florence Pinton, socióloga
Unicamp :
Mauro de Almeida, antropólogo

Outras colaborações
na França :
EHESS : Pascal Cristofoli (análise de redes)
MNHN : Catherine Hoare (análise documentária)
no Brasil :
ISA : Fernando Mathias (jurista), Geraldo Andrello (antropólogo), Juliana Santilli (jurista), Ludivine Eloy (geográfa-agrônoma)
Univ. federal de Rondhônia : Gilda Santos Mühlen (geneticista)
Museu Goeldi : Lúcia van Velthem (antropóloga)
UFAC : Mariana Pantoja (antropóloga)
CDS/UnB : estudantes de Doutorado e Mestrado
nos Estados Unidos
Univ. de Chicago : Manuela Carneiro da Cunha (antropóloga)

Formação
Doutorado : Augusto Postigo (antropólogo, Unicamp), Rafael L. G. Raimundo (ecólogo, Unicamp), Regina Oliveira (etnobióloga, MPEG / CDS-UNB)
Mestrado : Ana Carolina Seixas (etnobióloga, CDS-UNB), Luciana Bomfim (etnobióloga, CDS-UNB)

Financiamento
IRD, CNPq, BRG - Institutos de Recursos Genéticos, ANR/IFB - Agencia Nacional para a pesquisa / Instituto francês da biodiversidade, MAE - Ministério das Relações Exteriores francês

Links úteis
http://www.ifch.unicamp.br/laa/pacta/
http://www.ur169.ird.fr/article.php3?id_article=57

Palavras chaves
Zonas geográficas :
Amazônia
Temáticas :
agrobiodiversidade, agricultura, erosão genética, saberes tradicionais